GLOBO NEWS

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

É possível fabricar um líder?

Em anúncios de oferta de trabalho nos sites criados para que as pessoas possam se colocar no mercado, há um perfil padrão do profissional que é exigido. Ele deve ser capaz de encontrar o caminho do sucesso com habilidades para negociar, administrar, falar fluentemente um ou mais idiomas, ter reconhecida e vasta experiência profissional, ter permanente foco nos objetivos da empresa e quantos cursos possam ser feitos pelo candidato, entre outros requisitos.

Entretanto, há poucas referências sobre a possibilidade de que essas pessoas possam desenvolver seu trabalho com autonomia, tenham condições de estabelecer trocas com seus superiores e não apenas cumprir metas e obedecer a ordens. Sim, executar uma tarefa ou bater carimbo, como nos referimos a um emprego que nos automatiza, deixa-nos limitados para pensar e agir.

Quem são as empresas e o que realmente desejam do seu quadro pessoal? Querem apenas resultados ou querem produzir conhecimento e multiplicar riquezas? Riquezas aqui refiro a tudo o que um emprego que nos dá satisfação e nos possibilita interagir positivamente com as pessoas possa nos proporcionar.

E os nosso chefes? Chefes? Podem ser chamados assim. Geralmente não gostamos deles. Afinal: “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Para muitas empresas essa frase é o slogan, o que a define. Quem são eles? Não os conhecemos o suficiente para emitir uma resposta clara e sincera. Claro, sem as bajulações ou o tapinha nas costas para parecer íntimo ou se sentir seguro.

A empresa tem um líder? Líder? Como assim! O que é isso? Que ser é esse? As empresas modernas e que valorizam as pessoas para que os resultados possam ser uma conseqüência, e não o fim. Elas têm uma pessoa, diferente do chefe, que pode ter sucesso na arte de negociar, de administrar, ele até fala fluentemente um ou mais idiomas, tem reconhecida e vasta experiência profissional, tem foco nos objetivos da empresa, experiência no exterior e vários cursos que o qualificam para receber o nome de líder. Mas, mais do que os requisitos técnicos, ele é capaz de estabelecer relações humanas construtivas positivamente com as pessoas, transformar o ambiente organizacional em uma fábrica de sonhos, de projetos e desperta o interesse das pessoas não só pelo trabalho, mas pelos outros seres também humanos com que todos convivem dentro da empresa. É uma retroalimentação.

Dessa maneira, há um importante e freqüente questionamento a respeito dos líderes que fazem parte das empresas, bem como quais as características que esse líder deve ter hoje e para o futuro. Sendo assim, considero que algumas características devem estar presentes nesta pessoa para que ele possa alcançar o sucesso que almeja com a sua equipe de trabalho. São elas:

- saber reconhecer seus limites e ter consciência de que não trabalha sozinho, mas que há um grupo de pessoas capazes de construir ideias e que ele não tem todas as respostas para as questões do grupo;

- ter a capacidade de empatia, ou seja, colocar-se no lugar do outro e poder avaliar de forma mais pessoal os fatos que ocorrem no dia-a-dia de sua equipe;

- ter bom humor, seriedade misturado com alegria transforma qualquer trabalho em foco nas ações;

- ter uma boa comunicação com a equipe, o líder moderno deve ter a habilidade de transformar informação em conhecimento, hábito que se dá através da disseminação e compartilhamento diário;

- o líder é um agente de mudanças, ele é capaz de conquistar as pessoas para que todos desejem fazer parte de uma nova causa, transmitindo confiança em suas atuações;

- incentivar, motivar e desenvolver as qualidades pessoais dos membros de sua equipe;

- deve levar a todos a pensarem e agirem conforme a missão, a visão e os valores da empresa;

- propõe constantes desafios à sua equipe, incentiva a criação pessoal e respeita as ideias de cada um para que todos possam agregar valor ao trabalho, bem como considera e respeita as diferenças pessoais, tanto a experiência profissional, quanto as de personalidade;

- capacidade de ouvir, ser interessado pelo o que as pessoas têm a dizer e como elas dizem, valorizar a equipe e proporcionar a inclusão aceitando e reconhecendo que todos existem e são importantes no processo de trabalho;

- descentralizar a decisão final, e sim, levar a uma construção em grupo para que todos se sintam parte daquela idéia;

- estar sempre focado e determinado a alcançar os objetivos e conseguir transmitir isso para a equipe;

- fazer feedbacks para obter uma avaliação do seu trabalho, bem como avaliar a equipe e o que pode ser melhorado na execução das tarefas;

- ter compromisso, lealdade e respeito pelas pessoas que trabalham com ele o possibilita conseguir estabelecer uma comunicação efetiva com a equipe e alcançar os objetivos comuns a todos;

- ser um líder integrador utilizando do que a equipe produz para guiar o trabalho e dar significado a ele;

- saber reconhecer outros líderes e não se sentir ameaçado por eles;

- considerar que a equipe é o conjunto das pessoas que a constitui, não particularizar relações, e ver o grupo como um ser constituído a partir de diferenças e igualdades entre as pessoas;

- ter espírito de equipe, reconhecer os valores individuais, mas sempre relacionando-os ao grupo;

- deve ter uma habilidade social grande, ou seja, ter a capacidade de construir, saber fomentar a solidariedade, a amizade, a afetividade e o respeito são fundamentos importantes de humanização dos ambientes de trabalho;

- respeitar a diversidade de, sexo, cor, etnia, fatores culturais etc;

- ser coerente entre as atitudes que tem e o que deseja da equipe;

- possibilitar que o trabalho tenha um significado importante na vida das pessoas;

- saber envolver e inspirar as pessoas com os objetivos e as missões do projeto profissional abraçado pelo time de trabalho, encorajando-os a seguir em frente.

Nesse sentido, penso que um desafio do líder é o de querer centralizar e gerenciar todos os papéis correspondentes ao parceiro empresarial. É importante que o líder tenha o conhecimento desses papéis e o desempenhe, mas, também, que ele possa compartilhar essas funções com outros profissionais que contribuam com uma visão diferente e que agregarão seus pensamentos na construção estratégica a ser seguida.

Então, poder contar com outras pessoas nesse processo possibilitará ao líder pensar na empresa de maneira descentralizada, pois dá valor ao conhecimento e à experiência das pessoas da equipe, o que possibilita uma ação objetiva quanto à demanda existente.

Entretanto, na ideia de um líder com boa capacidade de comunicação e que sabe ouvir, o trabalho em grupo poderá ampliar o seu papel de parceiro empresarial com a possibilidade de traçar estratégias importantes para a empresa a partir da visão de todos os parceiros que atuam com ele.

A descentralização da ação estratégica da empresa, permite ao líder agir com segurança em suas decisões tendo como pressupostos o trabalho dos demais parceiros que com ele construíram a ação. Essa é uma forma de agregar uma identidade à empresa, onde todos são realmente partícipes da missão, dos valores e da sua visão.

No mesmo sentido, atrelado aos desafios e soluções e nas características deste líder, há o produto final que alimenta a empresa e que é a estratégia desenvolvida para que todo esse mecanismo funcione. Em um primeiro momento, para que ocorra êxito na estratégia na liderança de equipes, é fundamental que as ações possam ocorrer com transparência, ética e ter a participação da equipe na construção e no desenvolvimento das mesmas.

O líder deve valorizar a sua equipe tornando-a comprometida e envolvida com o trabalho. Fazer com que todos façam parte do pensar e do agir cria um ambiente de trabalho satisfatório, pois a partir de um relacionamento verdadeiro que valoriza as pessoas e que existe descontração e um foco nas ações, há um caminho aberto para que a equipe possa produzir com interesse e empenho as suas atividades.

Acredito que não exista uma estratégia pensada ou arquitetada, ainda que chegue ao sucesso. O fator humano ainda é primordial e o mais importante. A relação que se estabelece entre as pessoas – líder e liderados – de forma natural e casual é que vai ser a razão pela qual as pessoas irão dar o que há de melhor nelas para a empresa, pela razão pela qual a empresa existe. Não será algo automático, sem vida.

Não há como se pensar estrategicamente se não reconhecermos, antes de tudo, que trabalhamos com pessoas que tem desejos próprios e que quaisquer resultados dependerão delas.

Por isso, penso que o perfil e o caráter do líder são tão importantes e decisivos no sucesso da implementação de qualquer objetivo da empresa. O líder pode, em meio aos problemas, conseguir solucioná-los se conseguiu estabelecer com o grupo empatia, respeito mútuo, paciência para ter a capacidade de ouvir e analisar a situação. Não há no ambiente organizacional de sucesso espaço para jogos de ego, concorrência desleal e egoísmo se as pessoas não conseguem em escutar umas as outras.

Considero que uma estratégia de sucesso não está no número de livros que lemos sobre o assunto, nem em quantos cursos de aperfeiçoamento na área fazemos. É algo que já está presente, ou não, nas pessoas. É a maneira como elas vêem e sentem não apenas as relações e as pessoas no trabalho, mas como elas as vêem no seu cotidiano, na vida. É o senhor que encontra um dos pescadores e lança uma pergunta desafiadora para ele. As questões tão comuns no meio organizacional e que introduziram esta análise são colocadas mais uma vez em discussão: É possível fabricar um líder? Que tipo de líder realmente queremos? Queremos realmente descobrir um líder ou fabricá-lo à nossa maneira? É necessário ter um líder definido para se obter sucesso no trabalho em equipe?

Portanto, a estratégia de uma organização não decola se não houver o entendimento de que uma empresa sem pessoas é apenas um amontoado de tijolo e cimento que busca incessantemente por mãos realmente humanas.